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sexta-feira, 23 de setembro de 2011

REFLEXÕES SOBRE O QUE É FELICIDADE

                Se acaso hoje fosse questionado acerca do que é a felicidade, diria que é algo inexplicavelmente perturbador! Sim, perturbador! É justamente a “força” que nos incita à busca concreta da realização de tantos ideais. Ideais que nos servem de “guias”, com os quais trilhamos nosso caminho sobre a face da terra.
            Felicidade é quem sabe aquilo que nos motiva, nos impulsiona a revertermos tantos “quadros penumbres” na parede de nossa fugaz existência, nas mais belas e expressivas representações. A felicidade representa o momento exato em que o nosso espírito contempla a perfeição – mesmo sendo esta apenas passageira, cá na terra. A felicidade é conjunto! Mas, paradoxalmente, é também unidade!
            Felicidade é exatidão momentânea! É o minuto despercebido! Felicidade é quando nos abraçamos e, ao sentir o outro a nos tocar, desperta em nós uma sede de infinito. Felicidade é a possibilidade do encontro. É, quiçá, a narrativa mais real e concreta daquilo que tanto almejamos e enfim possuímos. Felicidade é a “inverbalização” do ontos. A felicidade se traduz na capacidade humana da plena realização, pois, todo nosso peregrinar só terá finitude na “transdimensionalidade”. Paradoxo ao entendimento humano! Loucura para os descrentes! Mas, a vida nada mais é do que pura contradição! Não há maior contradição do que viver em “preparação” à ausência da vida: a morte!
            Felicidade é o suspiro dado! O alívio sentido! O amor expressado! Felicidade é a maneira pela qual o homem diz a si mesmo: vale a pena viver! Felicidade é o desfecho histórico mais perfeito, mais sublime! Felicidade é a memória constante e insistente do que foi bom e merece ser re-vivido!
            Que mais poderia se dizer? Felicidade é a oportunidade de findar-nos nos braços de quem amamos e, nos esquecendo de nós mesmos, podermos nos encontrar naquele por quem palpita o nosso coração. Felicidade é a atitude do vivente em resposta tão eloqüente aos apelos e subterfúgios dos que não amam, nem querem ser amados!
            Felicidade é contemplar face à face a quem amamos e, num único desejo, rendê-lo em nosso abraço. Felicidade é a banalização da realização! Felicidade é o critério perspicaz para se pensar se é isto ou aquilo. Felicidade é o que no momento estou sentindo! E isso é só!

Luiz Felipe P. de Melo.
24/09/2011

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Infante

















Ai! Que saudade da minha inocência primeira
Que a delonga dos anos não traz mais!
Saudades do tempo de criança quando brincava
De ser adulto sem compromisso algum!
Hoje também brinco.
Brinco de ser criança, descompromissando-me!
Brincava outrora de ser adulto,
Fugindo da candura
Que me era peculiar.
Brincando, eu brinquei de ser gente.
Hoje, brincando,
Na verdade eu só queria ser inocente.
Talvez seja isso,
O que venha a fazer:
Fugindo, fugi de mim mesmo.
Agora, tarde demais,
Encontrei-me sem querer.
Desfiguradamente,
Nem sei mais quem sou.
Apenas sei
Que um dia eu não amei
Quem antes me amou.


Luiz Felipe P. de Melo.
Segunda-feira/ 29 de agosto de 2011.

domingo, 28 de agosto de 2011

Sem ti, vida minha, vejo-me cativo!




Em mais uma noite escura e fria,
Lancei-me sobre as ruas da cidade
Em busca, quem sabe,
Daquele por quem meu peito palpita.
Quiçá, em busca daquilo que já havia perdido
Há certo tempo, cujo nome
Está inscrito nas paredes do passado.
Parece-me, pois, que outrora se intitulava
De Felicidade.
Mas, a final, ela existe?
Creio que sim!
Anda por aí, perdida e loquaz.
Convence-se fácil quem pensa
Que a retém.
Porém, se entristece com maior rapidez
Quem percebe que a mesma é apenas um fluído.
Alegro-me, pois, em intuir que
Outrora já a conheci.
Animo-me também, porque acredito
Ser mais fácil agora encontrá-la.
É por isso mesmo
Que agora parto...
Parto por estas ruas tão torpes,
Tão fugazes e entediantes,
A procurar quem antes eu havia encontrado,
E que por um descuido, ela de mim se perdeu.
Eis, pois, minha agonia latente,
Minha perturbação-existente!
Oh, cruel vida! Oh, crueldade de vivente!

Luiz Felipe P. de Melo.
Domingo/ Recife, 28 de agosto de 2011.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Rouquidão!


Minha voz se esvaí e, com o tempo, tudo se torna fúnebre!

Parece, de início, algo negativistas, pessimista,

Mas, por outro lado, pode ser apenas um surto psicótico!

Algo talvez ainda inexplicável,

Que me vem pelo gosto amargo das lembranças que me restam.

Quiçá eu esteja fatigado desta vil vivência,

Destas maledicências inoportunas de outrem.

Deste “povinho” que nada tem a oferecer,

A não ser, críticas sem nenhum embasamento.

Ahr, cansei dessa monotonia!

Dessa incansável busca de mim!

Cansei de hipertrofia, dessa paralisia,

De uma hipocrisia maldita e sem fim!

Sem muito a dizer, por hoje me despeço

E logo que tropeço,

Cai no reverso de um outono em mim.

Luiz Felipe Pereira de Melo.

Sexta-feira/ 26 de agosto de 2011.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Retornando...


Meio que sem inspiração, descompassadamente, eis que me lanço sobre esta fugaz folha em branco, para narrar a desdita de um pobre sonhador. Para retratar aqui as imagens que minh’alma insiste em querer contemplar, mesmo que ansiosa, mesmo que depressiva, ela detém “em-si” toda a beleza daquele ebúrneo palácio encantador.

Não sei ao certo como é que vim novamente aqui parar, nem tampouco através de que, apenas sei que os meus pés empoeirados, guardam os resquícios daquela terra bendita e juntamente com ela todos aqueles sonhos.

No momento sei que não devo me deixar seduzir por nada e nem ninguém. Não posso manter os pés fixos à uma dada estrutura, mas, pelo contrário, é necessário reconhecer que eu fui feito para alçar grandes vôos. Assim sendo, preso a algo, isto me impede de voar!

Por isso, o meu desejo para o hoje é quem sabe o de possuir asas! Sim, um belo par de asas! Capaz de me transportar para um mundo ainda incognoscível, distante desta rotina que me cerca e me aflige, capaz de me retirar desse abismo inoportuno e me lançar ao meu nada existencial, impulsionando-me a transformar os sinais de morte em vestígios de eternidade.

Que toda a minha vida seja isso: sinal de eternidade, desejo de eternidade! Que tudo que eu venha a fazer, expresse a eternidade, seja índice de eternidade! E o mais... o mais, como o nome já indica, virá por acréscimo e disto eu tenho plena convicção!

Luiz Felipe P. de Melo.

Recife-PE/Quinta-feira, 25 de agosto de 2011 A.D.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

My Day!


Eu sei que talvez, hoje, olhando para o passado, eu venha a ficar convencido de que muito pouco ou quase nada eu sei. Quase nada da vida, da lida, do pranto, do show! Isto é fato! Apenas posso dizer que caminhei algumas léguas para aqui chegar, semeei quem sabe esperança por onde passei, reguei com amor e fidelidade e lá no fim do horizonte parece-me que já contemplo a imagem de grandes feixes entulhados para a grande festa que é a colheita da vida.

Hoje, passados exatamente vinte e um anos, me volto àquela bendita tarde do dia dois de agosto de um mil novecentos e oitenta e nove, aonde pela graça de Deus eu vinha ao mundo e trazia comigo a difícil missão de ser Luz onde as trevas superabundavam... foi e está sendo ainda mui difícil! Mas, quem algum dia disse-me que seria fácil?!

Recordo-me dos meus primeiros e inseguros passos, ainda de mãos dadas com aquela que me gerou, eu temente a tudo, não muito demorei a andar com as minhas próprias pernas. Resultado, aprendi, sem delonga alguma, a caminhar e a dar grandes passos por vezes. Quanta terra ficou presa à sola dos meus sapatos, quanta gente, quantos sonhos, quantas realizações, quantas decepções, quantos temores e tremores, quiçá ainda não superados, mas, sublimados. Quanta coisa eu já vi, outras tantas eu já vivi. Há ainda aquelas que fiz questão de apagar da memória.Quantos letras, imagens, versos e rimas, melodias; eu aprendi, escrevi, fotografei, recitei, cantei....

Voltando o olhar para o que passou, contemplo, no chão de minha existência, tantas pegadas, tantos encontros e tantos desencontros, mas, a certeza de que nada foi em vão: cada sorriso, cada encanto, cada lágrima, cada momento, cada contato, cada um daqueles que tive a oportunidade de ao menos dizer um “Bom dia!”. Tanta gente, quantos sonhos, quanta vida, quanta história. Saudades! Algo que ainda persiste em minh`alma, em minha memória.

Agora tenho a certeza de que muito eu sei sobre eu mesmo... Sei bem de onde vim, como vim, porque vim, como eu sou, porque sou, para onde vou, como vou, com quem vou... Dúvidas como essas são persistentes e, se fazem presentes por todo o diligenciar existencial, daí, concluo, desde já, que somente haverá um dia que elas não mais se farão presentes, quando eu não mais por aqui estiver.

Mas, quem seria eu?

Luiz Melo! Um jovem sonhador, desejoso de tantas coisas, amante do saber, curioso, perceptivo, intuitivo, orante, falante, dançante, tolo, talvez. Alguém que do nada veio, que caminha quem sabe sem rumo, mas, com uma viva motivação: o Amor, porque somente quem ama, é capaz de viver e de desejar contemplar dias melhores.

Sou do tipo de pessoa “incomum”. Não me reduzo às especulações alheias, nem tão pouco ao fardo dos rótulos de outrem. No mar da vida, não sou mais um marinheiro de primeira viagem, sou alguém que deixou o porto há algum tempo e que apenas sabe que o amor e o tempo são quem impulsionam a viagem! Na verdade, buscando filosofar sobre minha aparência, descubro que sou toda a beleza e mistério que se manifestam em mim e todas as minhas dúvidas e angústias.

Luiz F. P. Melo.

02 de agosto de 2010

Pela passagem de meu natalício...

quarta-feira, 26 de maio de 2010

REFLEXÕES SOBRE O ‘VIVER’

Parece-me que viver é muito mais do que sentir. É de fato, fazer-se, lançar-se sobre a linha do tempo, sofrendo os declives da história. Viver é um querer, é uma pulsão que vem de dentro da gente, a qual nos impulsiona a buscar respostas eloquentes aos nossos questionamentos.

Viver é a arte de se encantar! Viver não é apenas ser. Viver ultrapassa limites. Viver é o esforço do ser enquanto ser-no-mundo. Viver é um constante arriscar-se. Viver é a tentativa de superar e ascender sempre. Viver é conjunto de possibilidades, jamais sentença! Viver é guerrilha humana! Viver é desafiador! Viver não é sonho!

Não se diz que eu “vivo”, mas, meu “viver” grita aos quatro cantos que eu vivo vivendo. Viver é a praticidade filosófica colocando-se no pano de fundo da história. Viver é uma constância inconstante que se delonga até a morte, no ensejo desta ser passagem, viver é infinitude. Viver é mais ato do que verbo. Viver é superior ao pensamento.

Viver se distingue de existir. Existir é ontológico. Viver é pragmaticidade! Viver é dinamismo, é mudança, é construção. Viver é identificar-se no mundo, viver no mundo, mas, conscientizar-se de que o mundo não possui a habilidade de me apreender. Viver é apaixonar-se a cada dia por um ideal... um único ideal: ser feliz! Viver é buscar mil maneiras de ser sempre o mesmo e, paradoxalmente, mudar constantemente.

Viver é relacionar-se-com. Viver é um encadeamento de reações com um único desfeche: o fim – que necessariamente não é fim! Viver é começar e re-começar sempre! Viver é loucura às vezes. Viver é também decepcionar-se, é sofrer, se aborrecer. Viver é também cair, se machucar, ferir. Viver é correr atrás do que passou e não foi feito. Viver é recordar-se! Viver é desejo! Viver é desconstrução e edificação. Viver é dependência-de. Viver é a arte do bem se relacionar, do bem se expressar, do bem agir.

Viver é sonhar! Viver afinal é transcender! Viver é fazer! Viver se contradiz com a corrente... quiçá não seja o “nadar contra a corrente”. Viver é conquistar! Viver é ser gente independentemente do que pensem. Viver, viver, viver... apenas! Viva e deixe viver!


26 DE MAIO DE 2010

LUIZ FELIPE P. DE MELO.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

"Pra renovar meu ser/Faltava mesmo chegar você..." - CONFUSÃO -

Hoje aqui estou para fazer um pouco diferente.
Talvez para falar do que ando sentindo, do que ando vivendo...
Sob o impulso deste verso, romanceio a experiência que tive através de teus lábios: algo talvez ainda inexplicável! Somatório de coisas que sonhei e, finalmente, concretizei!
Gozo do pobre que dura tão pouco!

Despertasse tão cedo e, eu, porém, continuei sonhando!
Sonhando com o leve - frio - toque dos teus dedos sobre minha derme, os quais se esquentavam com a volúpia do meu desejo latente. Sabia que não duraria por muito tempo,
mas, sem delongas alguma, retirasse de mim a doce tentativa de ser feliz, mesmo que momentâneamente.

Quem dera eu, voltar atrás e parar o tempo...
Parar a respiração se possível fosse, e me perder no infinito momento em que estive contigo!
Quem me dera novamente a chance de repetir tudo o que experimentei através de tua fissura facial, de beijar-te a boca e ao mesmo tempo que, debruçando-me sobre teu tórax, parar a dinâmica da vida - o sofrimento de viver - e me perder, achando-me em voce.

Mas, não adianta!
Eu sei que estou me enganando...
Tentando ludibriar a mim mesmo!

Esgotando as possibilidades,
mais uma vez vou eu...
Tentando esquecer-te e
cada vez que tento, me lembro de voce...
E é como se eu desistisse!

Que venha a ação do tempo!
Que venham os ventos!
Que eles te levem para junto-distante de mim!



quarta-feira, 5 de maio de 2010

Saudade: o olhar da alma que se volta para o que se-foi...

Na verdade, não sei bem do que sinto saudades:
isto é um problema!

Diante de tudo o que já vivi e experimentei,
sinto falta da segurança do ventre materno,
da estabilidade do recôncavo uterino.

Sinto falta do conforto de um coração que me amou,
bem antes mesmo de meu nascimento.
Sinto falta de tudo o que eu não fui capaz de realizar.

Sinto falta neste momento dos teus beijos,
do calor de tuas mãos sobre as minhas.
De teu suave toque...

Sinto falta, eu acho...
das desventuras e aventuras...
Do risco e do medo!

Sinto falta de tudo o que já passou!

Olhando pra trás,
temo e, como o nome deste Blog, tomo consciência:

"Não dá mais pra voltar"!


Coragem!

Avante!

Arrisco-me, lanço-me nas águas deste mar...
e sou convidado a navegar...


Oh, água!
Oh, vida!

Lanço-me a vós,
querendo me perder de mim mesmo
e buscando me encontrar ao mesmo tempo!

terça-feira, 4 de maio de 2010

Exercício do Existente!


Sofrer o sofrimento inevitável da vida, da morte...
Sentir o mistério do existir, do ser-estar-no-mundo...
Sofrer a angústia de viver ante às incertezas da vida...
Sofrer por querer além do que se pode...
Sofrer por ter muito menos do que necessita...
Penar na dura temporalidade, fictícia temporalidade...
Sentir no deprimível solo da existência a inevitável sensação de que tudo passa e, que o meu "eu" também passará...
Sofrer as demoras do tempo presente em função de uma "futuralidade"...
Sentir os calafrios em nossa espinha dorsal a cada vez que tomamos um impulso vital...
Nos debruçar sobre nós mesmos, na inexorável tentativa de auto-definição, esbarrando-se sempre num limite extenso e intenso!


quinta-feira, 9 de abril de 2009


Como são belas as palavras que compõem esse verso!


A Liturgia de hoje nos convida a refletir o sentido de duas palavras que se complementam: amor e doação.


“Deus amou tanto o mundo que nos deu seu Filho único”;

Damos início, com esta celebração, ao Tríduo Sacro rumo à Festa das festas.
Celebramos hoje a Páscoa de Jesus que se dá na Ceia – fazemos memória da Última Ceia de Jesus, de seu amor sem limites e da inauguração da Nova Aliança no sangue Dele derramado na cruz.

Ao celebrarmos a Ceia do Senhor, também celebramos a instituição da Eucaristia e do Sacerdócio – hoje é dia do padre. Fazer memória não é simplesmente recordar um fato, mas é, antes de tudo, atualizar esse fato, torná-lo presente hoje.

Jesus manifesta o desejo de celebrar a Eucaristia com os seus discípulos, mas não sem antes ensinar-lhes seu verdadeiro sentido. Em torno de uma mesa familiar, interrompe a refeição e mostra-lhes por meio de um gesto sublime que Eucaristia e amor-serviço estão intimamente interligados.

A Eucaristia só é verdadeira comunhão se nela estiver presente a dimensão da fraternidade, do amor, da doação. Sentar-se à mesa com Jesus para celebrar a Eucaristia implica em abaixar-se para lavar os pés uns dos outros. Comungar é antes de tudo comprometer-se com o projeto de vida de Jesus. A grande lição de Jesus na última ceia, ao lavar os pés dos discípulos, foi mostrar-nos que sem a partilha da própria vida não há vida eucarística.

O evangelho de São João nos traz uma cena que ajuda a compreender um aspecto importante da vida do cristão: o serviço. Ele nos mostra Jesus amarrando à cintura uma toalha e se preparando para lavar os pés dos seus discípulos. Na segunda leitura, temos a descrição da instituição da Eucaristia.

A entrega de Jesus é total e muito concreta. Jesus oferece seu corpo, isto é, sua vida inteira, suas ações, seu modo de viver e morrer, sua disponibilidade total para o serviço do Reino. E pede que façamos memória não só da última ceia, mas de todo o sentido da sua vida.

Não foi só na hora de lavar os pés dos apóstolos que Jesus esteve a serviço: ele veio para servir e se dirigiu especialmente aos mais abandonados, excluídos de qualquer outra ajuda que não fosse o grande amor de Deus.

Jesus entrega seu corpo e sangue. É isso que recebemos na Eucaristia. Nossa vida inteira, não apenas a missa, deve carregar a memória do que ele viveu. Somos, pela Eucaristia, sinais vivos da presença do Cristo servidor em um mundo que precisa muito da nossa generosa dedicação ao projeto de Deus. Jesus instituiu a Eucaristia na ceia da Páscoa judaica. Ele também estava acostumado a fazer memória da ação de Deus em favor do seu povo.

A Páscoa era a celebração de uma aliança fundamental e libertadora. Somos herdeiros da tradição libertadora da Páscoa judaica e da nova e definitiva aliança realizada por Jesus. Fazemos parte dessa história de fé que vem de Abraão, passando por Moisés, culminando com Jesus, sendo transmitida pelos apóstolos e preservada nas Igrejas cristãs até hoje.

Não é só memória; é convite ao serviço que transforma o mundo e o coração de quem serve e de quem tem humildade para se saber necessitado da ajuda solidária de Deus e dos irmãos. Agora somos nós os encarregados de passar essa memória ao mundo que não crê e às novas gerações. Não faremos isso apenas proferindo discursos sobre Jesus. "Façam isto para celebrar a minha memória" significa: coloquem sua vida a serviço do Reino, como eu fiz, e sejam uma verdadeira família de irmãos solidários uns com os outros.



Que o Senhor nos conceda a graça de celebrar esses três dias com fiel devoção e zelo, que contemplando a dolorosa Paixão do Senhor, possamos nos alegrar com sua Vitória sobre a mesma e sobre o Pecado!

segunda-feira, 23 de março de 2009

Sufrágios de mim mesmo...


Quem seria eu?

Permita-me, pois, voltar-me, por uns instantes para dentro de mim mesmo e lá, sozinho e afastado de todos, redescobrir-me...

Primeiro, percebo que uma resposta traz sempre um questionamento e, sendo assim, uma série de perguntas infinitas...
Definir é buscar uma finitude!

- Eis um problema!

Sei que sou ‘imagem e semelhança’ do criador (cf. Gn. 1, 27);
Vestígio da Glória do Altíssimo e Onipotente Senhor Deus do Universo;
Sei que fui criado para o louvor e glória de Cristo Jesus;
Sei que sou tão pecador;
Tão limitado;
Cheio de máculas e de chagas...
Sei que sou ferido pelo pecado;
Que sou tão frágil e limitado.

Sei que sou um ser de contradições;
Ora eu amo, ora eu abomino!
Sei que sou assim...
Não é preciso ninguém ratificar esse fato.

- Eu sou uma inconstante interrogação a mim mesmo!

Sou, talvez, o pesadelo de alguns...
De tantos, apenas um sonho!

Eu sou o livre vôo da gaivota,
Que se lança rumo ao céu desconhecido
A desbravar cada nuvem,
Experimentando a doce

E singela sensação de liberdade...

Sou, talvez, quem eu queira
Que os outros sejam a mim...
Talvez eu seja um pouco de tudo
Que eu já tenha lido e vivido...


Para uns, sou uma sequela maldita...
Para tantos, eu sou remédio que cura!

Talvez nem eu mesmo sem quem sou...

Sei que sonho muito!
E isso é tudo...



Luiz Felipe P. de Melo.
21/03/2009.

domingo, 22 de março de 2009

Alegrai-vos! É chegado tempo oportuno, o 'kairós'...


Hoje a liturgia nos convida a nos alegrar porque se aproxima a Páscoa, o dia da Vitória de Cristo sobre o Pecado e sobre a Morte... Eis que um novo tempo está próximo! A antífona inicial resume, pois, toda a centralidade da nossa celebração de hoje: Alegrai-vos - é o Senhor da Justiça que nos convida - pois a Festa das festa está mais próxima!





No meio da Quaresma, na metade do caminho para a a Celebração da Ressurreição do Senhor, a Igreja nos convida à alegria pela aproximação da Santa Páscoa. Daí hoje a cor rosácea (um tom amis leve) e as flores na igreja. “Alegra-te, Jerusalém!” – Jerusalém é a Igreja, é o Povo santo de Deus, o Novo Israel, é cada um de nós... Alegremo-nos, apesar das tristezas da vida, apesar da consciência dos nossos pecados! Alegremo-nos, porque a misericórdia do Senhor é maior que nossa miséria humana!




Inspirandos na primeira leitura da liturgia de hoje, que narra o convite ao povo exilado para regressar a Jerusalém e reconstruir o templo do Senhor, todos nós somos convidados a refletir sobre o regresso à nossa terra, é-nos feito um audacioso convite, retornar às nossas origens e, evocando o Poverello de Assis, "pois pouco ou nada fizemos".




Não muito diferente da realidade do povo da Antiga Aliança, essa também é a nossa. Somos infiéis e incapazes de propagar esse Deus que nos retirou da condição de escravos e nos deu uma nova vida. Já deveríamos ter visto isso claramente a essa altura da Quaresma! É trágico, na primeira leitura, o resumo que o Livro das Crônicas traçou da história de Israel: “Todos os chefes dos sacerdotes e o povo multiplicaram suas infidelidades, imitando as práticas abomináveis das nações pagãs. O Senhor Deus dirigia-lhes a palavra por meio de seus mensageiros, porque tinha compaixão do seu povo. Mas, eles zombavam dos enviados de Deus, até que o furor do Senhor se levantou contra o seu povo e não teve mais jeito”. Com estas palavras dramáticas, o Autor sagrado nos explica o motivo do terrível e doloroso exílio da Babilônia: Israel fez pouco de Deus, virou-lhe as costas; por isso mesmo, foi expulso do aconchego do Senhor na Terra que lhe fora prometida, perdeu a liberdade, o Templo, a Cidade Santa, e tornou-se escravo no Exílio de Babilônia. Aqui aparece toda a gravidade do pecado, que provoca a ira de Deus! É sempre essa a conseqüência do pecado: o exílio do coração, a escravidão da vida!




Mas, ao mesmo tempo, e diria até de forma paradoxal, Deus em sua infinita misericórdia, Se-nos dá através de seu único Filho, O qual Ele pôs todo o seu agrado... "Deus é rico em misericórdia. Por causa do grande amor com que nos amou, quando estávamos mortos por causa das nossas faltas, ele nos deu a vida com Cristo. E por graça que vós sois salvos"! Assim nos fala o apóstolo Paulo na segunda leitura... A misericórdia do Plano Salvífico de Deus se concretiza em Jesus Cristo. Como também diz São Paulo, "é pela graça que nós fomos salvos" e, é este o motivo de nossa alegria... Fomos salvos pois Deus lançou suas vistas sobre as nossas misérias, se compadecendo de nós, nos deu a vida de seu Filho... O perfeito sacríficio, a própria imolação pascal.!




Fica assim evidente a atitude que deve ter o homem diante dos acontecimentos que vive e dos quais é protagonista. Deve saber colher, em sua fatualidade, a "palavra" de Deus. Fazer a verdade é compreender esta palavra. Crer em Cristo é receber a luz que dá sentido ao que acontece. Isto não é uma conquista nossa, é um dom de Deus, dom que, fazendo-nos compreender sua vontade, salva-nos (evangelho e 2ª leitura). Toda a nossa vida e a história adquirem sentido, definem um plano que se realiza no tempo.




O relato evangélico, em consonância com as leituras anteriores, vem nos comunicar sobre o Amor... São João, considerado o evangelista do amor, é aquele que tão sabiamente define Deus como sendo "amor". O Senhor, com palavras comoventes, explica a Nicodemos a sua missão: “Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho unigênito, para que não morra todo aquele que nele crer, mas tenha a vida eterna. De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele”. Eis aqui, a chave de interpretação de toda a Liturgia da Palavra de hoje... Alegremo-nos, pois, Deus nos deu seu Filho para que nós não morréssemos...




Porque “estávamos mortos por causa de nossos pecados”, Deus, na sua imensa misericórdia, nos deu a vida no seu Filho único. Vede, irmãos: há duas realidades que são bem concretas na nossa existência. Primeiro, a realidade do nosso pecado. Nesta metade de caminho quaresmal, é preciso que tenhamos a coragem de reconhecer que somos pecadores, que temos profundas quebraduras interiores, paixões desordenadas, desejos desencontrados que combatem em nós... Quantas incoerências, quantos fechamentos para Deus e para os outros, quantas resistências à graça, quantas máscaras!




É preciso que nos libertemos, pois, de tudo aquilo que nos impede de bem celebrarmos a Páscoa do Senhor, para que não mais sejamos os mesmos, porém, novas criaturas!




Também hoje há quem lamente a destruição dos privilégios - das instituições cristãs -, e não saiba ver o valor profundo dessa situação, suscetível de uma leitura aberta e cheia de esperança. Se a Igreja não goza mais de privilégios e atenções, se caminhamos para uma situação de "diáspora", e o momento da fidelidade interior (talvez obscura), do apoio que vem não mais de uma sociedade cristã, mas de pequenas comunidades que encontram sua força na meditação da palavra de Deus. É uma esperança lúcida e penosa numa nova primavera da Igreja, cujo tempo e cujas modalidades cristão nas mãos de Deus.



Neste ano em que a Igreja do Brasil nos convida à reflexão sobre Segurança Pública, precisamos perceber que, como canta o hino da CF:


"É vão punir sem superar desigualdades; É ilusão só exigir sem antes dar. Só na justiça encontrarás tranquilidade; Não-violência é o jeito novo de lutar."


Desarmemos, pois, os nossos corações e, inspirados pelo Espírito da Verdade, possamos nós chegarmos à Pascoa de Jesus transformados pelo amor... Amor este que é evidenciado no ato de entrega do Cristo na cruz, onde, ela - a cruz - foi o trono que Jesus possuiu aqui na terra.




Recordemos que hoje, no Evangelho, após mostrar o imenso amor de Deus pelo mundo, a ponto de entregar o Filho amado, Jesus nos previne duramente: "Quem nele crê, não é condenado, mas, quem não crê, já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho unigênito”. Ora, caríssimos, acreditar no nome de Jesus não é aderir a uma teoria, mas levá-Lo a sério na vida pelo esforço contínuo de conversão à sua Pessoa divina e à sua Palavra Santa!


Crede, irmãos, crede, irmãs! Crede não com palavras vãs! Crede com o afeto, crede com o coração, crede com os lábios, mas, sobretudo, crede com as mãos, com os vossos atos, com a prática da vossa vida! De verdade creremos na medida em que de verdade nos abrirmos para a sua luz; pois “o julgamento é este: a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz”.


Coragem! Ponham-se a caminho! Olhem o futuro com esperança, confiem nas promessas de Deus e vivam na sua Verdade... Alegrem-se, não esmoreçam!


Que o Senhor nos dê a graça de ver realisticamente nossos pecados, reconhecê-los humildemente e confessá-los sinceramente, para celebrarmos verdadeiramente a Páscoa que se aproxima e dela participar eternamente na glória do céu.



Luiz Felipe P. de Melo.


IV DOMINGO DA QUARESMA; ANO B

22 de março de 2009.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Catequista: Uma vocação, um Ministério


A catequese tem como finalidade específica a de desenvolver, com a ajuda de Deus, uma fé ainda inicial e de promover em plenitude e alimentar cotidianamente a vida cristã dos fiéis de todas as idades. Trata-se, com efeito, de fazer crescer, no plano do conhecimento e na vida, o gérmen de fé semeado pelo Espírito Santo, com o primeiro anúncio do evangelho, e transmitido eficazmente pelo Batismo.
A catequese de primeira Eucaristia introduz a criança e o pré-adolescente na vida da Igreja, compreendendo também uma preparação para a celebração dos sacramentos, apresentando os mistérios principais da fé e comunicando aos jovens a alegria de serem testemunhas de Cristo no meio em que vivem. Pensamos que a catequese não pode ignorar o delicado período de vida que crianças e pré-adolescentes atravessam no mundo atual. Portanto, ela deve ser capaz de ajudá-los a uma revisão de sua própria vida, ao diálogo, apresentando Jesus Cristo como amigo, como guia e como modelo, suscetível de provocar admiração e, como conseqüência, a sua imitação.
Não muito diferente, a catequese de crisma tem como principal finalidade dar a conhecer Jesus... Levar esse Jesus aonde muitas vezes Ele não tem espaço para entrar. Levá-Lo a jovens inseridos num contexto familiar, por vezes traumático. E dentro desse diligenciar fazer com que os mesmos possam fazer uma experiência profunda de oração e de viveência com e no Espírito Santo, encoranjando-os a sairem do comodismo e ir ao encontro de Jesus que se manifesta na pessoa dos mais carentes.
A catequese apresenta o evangelho que paulatinamente vai sendo compreendido e acolhido como algo capaz de dar um sentido à vida e, por isso, de inspirar atitudes de outra forma inexplicáveis, por exemplo: renúncia, desapego, mansidão, justiça e fidelidade aos compromissos. Desde a primeira infância até o limiar da maturidade, a catequese torna-se, pois, uma escola permanente da fé e segue as grandes linhas da vida, como um farol que iluminará o caminho da criança, do adolescente e do jovem.
O catequista também deve ter uma formação permanente. Todos somos alunos e discípulos da vida e da fé desde a infância até a terceira idade. O catequista cresce na fé à medida que, inserido no grupo de catequistas, vai ajudando os outros a progredirem na fé. Os apóstolos cresceram na fé seguindo Jesus e evangelizando como Ele. Também o catequista, ao evangelizar, é evangelizado; enquanto dá, recebe; enquanto faz os outros caminharem na fé, dá largos passos no crescimento da própria fé.
Santo Agostinho afirma: “O Espírito Santo acende no coração dos fiéis um desejo mais vivo à medida que cada um vai progredindo na caridade, que o leva a amar ainda mais aquilo que já conhece e a desejar o que desconhece”. O nosso trabalho é anunciar Jesus Cristo. Ser catequista é acolher, com amor e dedicação, uma vocação - missão de fundamental importância, pois quem responde SIM a essa vocação se coloca à disposição para ajudar os que já seguem Jesus a serem discípulos mais conscientes, coerentes, maduros e generosos.
Ser catequista é colaborar com a graça de Deus e com a pessoa, para que ela assuma seu sim a Deus, e avance rumo à maturidade na fé, na esperança e no amor. Cabe à pessoa que sente o chamado a ser catequista procurar os meios de apresentar o Reino de Deus. Como nos revela Jesus: “O Reino de Deus é como um homem que lançou a semente na terra: ele dorme e acorda, de noite e de dia, mas a semente germina e cresce, sem que ele saiba como. A terra, por si mesma produz fruto: primeiro a erva, depois a espiga e, por fim, a espiga cheia de grãos. Quando o fruto está no ponto, imediatamente se lhe lança a foice, porque a colheita chegou” (Mc 4, 26-29).

Eis que me volto a contemplar a inércia da "mesmice" e, ao imergir em mim mesmo, redescubro e reinvento aquilo que pensava ser... Aquilo que eu pensava de mim mesmo, aquilo que, talvez os outros achem ao meu respeito.
Caminhando e reconstruindo; muito aprendendo e muito amando... Muito lutando e muito sonhando! Nunca desistindo... Às vezes caindo... Reanimando-me! Voltando-me ao ponto de partida. Reerguendo-me: aqui está a minha essência talvez! Fugindo! Correndo! A fuga de mim mesmo para que eu me reencontre no mundo! No mundo que eu vivo alheio... Mundo este que estou inserido!
Pouco conquistando... Lutando! Sonhando e, sobretudo, acreditando! Olhando para o alto... Erguendo às vistas ao mais alto céu! Creio que muito alto, mas é lá que devemos por os nossos sonhos e também as nossas conquistas.
Talvez, para uns eu seja mais um tolo, mais um amante-sonhador que tina em desbravar o oceano, o desconhecido. Talvez nem eu mesmo saiba ainda o que quero! Eu e minhas dúvidas...
Sei que eu amo tudo o que faço e isso somente não me basta!
Tenho os meus medos; minhas cicatrizes profundas. Tendo a presença ausente de minhas conquistas inexoráveis e de minhas lutas incursas medíocres, talvez.


Tendo presente que o vir-a-ser é ideal, mas, não impossível.

Acreditar em mim mesmo, talvez seja isso que me falte...
Talvez seja isso que eu não tenha!




Luiz Felipe P. de Melo
18/03/2009.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Viva a Vida!



A Igreja foi Durante Séculos Favorável ao Aborto?
(D. ESTEVÃO TAVARES BETTENCOURT, OSB)



A Igreja sempre foi contrária ao aborto, ou seja, ao morticínio de uma criança contida no seio materno. Já no século I se encontra um testemunho deste repúdio na Didaqué. Os Concílios regionais, desde o de Elvira (início do século IV), foram impondo penas severas aos réus de aborto. 0 Direito Canônico, hoje vigente, fazendo eco às diretrizes do passado, prevê a excomunhão latae sententiae para quem provoque o aborto (seguindo‑se o efeito).

Todavia até época recente os cientistas hesitaram sobre o momento em que tem início a vida humana: seria imediatamente após a concepção ou após a fecundação do óvulo? Ou haveria, conforme pensava Aristóteles, um intervalo (de 40 ou 80 dias) entre a concepção e a animação do feto? A hesitação da ciência, bem compreensível, dada a falta de meios de pesquisa, fez que vários teólogos católicos julgassem com menos severidade a eliminação do feto antes do 400 dia (no caso dos indivíduos masculinos) ou antes do 809 dia (no caso dos indivíduos femininos). Note-se bem: sempre foi condenada a ocisão de uma criança; a hesitação versava apenas sobre a questão de saber se já existe verdadeiro ser humano desde o momento da concepção.

Num debate na televisão sobre o aborto, foi considerada a posição da Igreja em termos que deixaram interrogações na mente do público. Entre outras coisas, foi dito que a Igreja não tem autoridade para impugnar o aborto, pois que ela o permitiu desde o século IV até o século XIX. A afirmação foi realmente surpreendente e exige esclarecimentos e retificações. Encararemos, a seguir, o assunto, tratando primeiramente dos pronunciamentos oficiais da Igreja sobre o aborto através dos séculos; após o que voltar‑nos‑emos para a questão do início da vida humana, que deixou dúvidas em escritores de todos os séculos até época recente.

1. 1. Os pronunciamentos da Igreja

1. Desde o século I manifesta‑se na Igreja a consciência de que o aborto é pecaminoso. Assim, por exemplo, reza a Didaqué, o primeiro Catecismo cristão, datado de 90‑100:
''Não matarás, não cometerás adultério... Não matarás criança por aborto nem criança já nascida" (2,2). 0caminho da morte é... dos assassinos de crianças‑ (5,2).

Na segunda metade do século II, o autor da Epístola a Diogneto observa: Os cristãos casam‑se como todos os homens,‑ como todos, procriam, mas não rejeitam os filhos" (V 6).

0 autor da Epístola atribuída a S. Barnabé no século II e depois Tertuliano (t 220 aproximadamente), S. Gregório de Nissa (t após 394), São Basílio Magno (t 379) fizeram eco aos escritores precedentes.

2. 2. A legislação da Igreja oficializou esse modo de pensar, estipulando sanções para o crime do aborto. Assim o Concílio de Ancira (hoje Ancara) na Ásia Menor em 314, cánon 20, menciona uma norma que os conciliares diziam ser antiga e segundo a qual as mulheres culpadas de aborto ficavam excluídas das assembléias da Igreja até a morte; o Concílio atenuou o rigor dessa penalidade, reduzindo a para dez anos:

As mulheres que fornicam e depois matam os seus filhos ou que procedem de tal modo que eliminem o fruto de seu útero, segundo uma lei antiga são afastadas da Igreja até o fim da sua vida. Todavia num trato mais humano determinamos que lhes sejam impostos dez anos de penitência segundo as etapas habituais" (Hardouín, Acta Conciliorum, Paris 1715, t. 1, col. 279) ["Demulieribus quae fornicantur et partus suos necant, vel quae agunt secum ut utero conceptos excutiant, antíqua quídem definitio usque ad exítum vitão ws ab Ecclesia removet. Humaníus autem nunc definimus ut eis decem annorum tempus secundum praetixos gradus paenítentíae largíamur].

Outros Concílios repetiram a condenação do aborto: o de Elvira (Espanha) em 313 aproximadamente, cânon 63; o de Lerida, em 524, cânon 2; o de Trullos ou Constantinopla, em 629", cânon 91; o de Worms em 869, cânon 35...

Em 29/10/1588, o Papa Sixto V publicou a Bula Effraenatam: referindo‑se aos Concílios antigos, especialmente aos de Lerida e Constantinopla, condenou peremptoriamente qualquer tipo de abordo e impôs severas penas a quem o cometesse, penas que só poderiam ser absolvidas pela Santa Sé. Além disto, a Bula não distingue entre feto não animado e feto animado por alma intelectiva, distinção esta de que falaremos às pp. 234‑236 deste artigo e que na época parecia muito importante.

Tal Bula era rigorosa demais para poder ser observada, principalmente pelo fato de reservar à Santa Sé a absolvição das penas infligidas aos réus de aborto. Por isto foi substituída poucos anos depois pela Bula Sedes Apostólica de Gregório XIV, datada de 31/05/1591; este documento distingue entre feto animado e feto não animado por alma humana: o aborto de feto animado ou verdadeiramente humano seria punido com a excomunhão para os culpados, mas sem reserva da absolvição à Santa Sé; quanto ao aborto de feto não animado ou não humano, ficaria a questão como estava antes da Bula de Sixto (seria passivo de sanção menos severa do que o aborto de feto animado).

Como se vê, a questão da animação mediata ou imediata era ardente na época. Diante das posições extremadas que alguns autores professavam, o Papa Inocêncio XI condenou em 02/03/1679, corno escandalosas e na prática perniciosas, as seguintes sentenças:

34. É lícito efetuar o aborto antes da animação para impedir que uma jovem grávida seja morta ou desonrada.

35. Parece provável que todo feto carece de alma racional enquanto está no seio materno,‑ só é dotado de tal alma quando é dado à luz, Em conseqüência, deve‑se dizer que nenhum aborto implica homicídio" (DenzingerSchõnmetzer, Enquirídion de Símbolos e Definições nº 2134s),

Como se vê, o Papa não quis abonar a tese do aborto sob pretexto de que não afeta um ser humano propriamente dito. Embora não se soubesse com certeza no século XVI I quando começa a vida humana, Inocêncio XI não se prevaleceu desta incerteza para legitimar a eliminação do feto contido no seio materno.
No século XIX o Papa Pio IX renovou a condenação do aborto, sem distinguir animação mediata ou imediata:

“Declaramos estar sujeitos a excomunhão latae sententiae (anexa diretamente ao crime), reservada aos Bispos ou Ordinários, os que praticam o aborto com a eliminação do concepto” (Bula Apostolicas Sedis de 121101 1869).

Esta sentença categórica persistiu na Igreja até o Código de Direito Canônico atual, que prevê a excomunhão para o delito:

"Cânon 1398 - Quem provoca o aborto, seguindo‑se o efeito, incorre em excomunhão latae sententiae".

Vê‑se, pois, que a Igreja desde os seus primórdios se manifestou contrária ao morticínio de uma criança contida no seio materno. Existia, porém, para os teólogos a grave questão de saber quando começa a vida humana; a falta de conhecimentos genéticos adequados levava alguns a crer que, em determinadas circunstâncias, não havia verdadeira vida humana no seio materno. É o que passamos a examinar mais detidamente.

2. 2. Animação mediata ou imediata?

Os seres vivos são compostos de um corpo organizado e um princípio vital (chamado anima, em latim). Animação, portanto, é o ato de se unirem o princípio vital (anima) e o corpo organizado. No homem, a animação ocorre quando a alma (anima) é criada por Deus e infundida nos elementos materiais orgânicos, aptos a exercerem as funções da vida humana (que é vegetativa, sensitiva e intelectiva). Pergunta‑se, pois, quando se dá a animação: logo por ocasião da fecundação do óvulo pelo espermatozóide? Tem‑se então a animação imediata... Ou a certo intervalo após a fecundação? Tem‑se assim a animação mediata.

Vejamos como os pensadores responderam à questão.
Na antiguidade pré‑cristã somente o filósofo grego Aristóteles (t 322 a.C.) tratou do assunto. 0 seu raciocínio não é claro, mas parece defender a animação mediata: o embrião humano teria primeiramente um princípio vital meramente vegetativo; depois seria animado por um princípio vital vegetativo e sensitivo, e só posteriormente por um princípio (anima) vegetativo, sensitivo e intelectivo ou por uma alma humana propriamente dita.

Passemos agora aos pensadores cristãos, distinguindo gregos e latinos.


2.1. Os escritores gregos

A maioria destes era partidária da animação imediata. Foi principalmente S. Gregório de Nissa (t após 394) quem marcou a tradição grega. Rejeitava a teoria da preexistência seja da alma, seja do corpo, e afirmava a origem simultânea de um e outro elemento; desde o primeiro instante da existência do embrião, a alma encontra‑se nele com todas as suas potencial idades, que se vão manifestando à medida que o corpo se desenvolve.

São Basílio Magno (t 379), irmão de S. Gregório de Nissa, adotou o pensamento deste. Por isto considerava assassinos os que provocam o aborto de um feto. São Máximo Confessor (t 662) abraçou a mesma tese, fundamentando‑se do seguinte modo: se o corpo existe antes de ter uma alma, é um corpo morto, pois todo vivente possui uma alma. Se preexiste à alma racional, tendo uma alma meramente vegetativa ou sensitiva, segue‑se que o ser humano gera uma planta ou um animal irracional ‑ o que é impossível, pois toda planta provém de outra planta e todo animal irracional nasce de outro animal irracional, e não do homem.

Entre os defensores da animação mediata, está Teodoreto de Ciro (t 466 aproximadamente). Apela para o livro do Gênesis, onde lhe parece que Moisés propõe a formação do corpo humano primeiramente e só depois a infusão da alma humana (cf. Gp 2,7). É certo, porém, que entre os gregos prevaleceu a tese da animação imediata.

2.2 2.2 Os escritores latinos

Entre estes destaca‑se Tertuliano (t 220 aproximadamente). Era favorável à animação imediata, argumentando, porém, a partir de um princípio que lhe valeu a réplica dos pósteros. Com efeito; Tertuliano defendia a animação imediata, julgando que as almas dos genitores desprendiam de si uma "semente (tradux) da qual se originaria a alma da prole; por conseguinte, juntamente com os óvulos e os espermatozóides, os genitores transmitiriam sementes de alma humana. Esta doutrina, chamada traducianismo, não preservava devidamente a espiritualidade da alma, mas reduzia a psyché humana à material idade. Por isto os escritores latinos, desejosos de ressalvar a espiritualidade da alma, puseram‑se a combater o traducianismo e, comeste, a doutrina da animação imediata. Afirmavam: a concepção é obra dos genitores, ,mas a animação é obra direta de Deus que cria e infunde a alma humana. Para bem distinguir uma da outra, distanciaram‑nas também cronologicamente: a animação se daria tempos após a concepção da criança.

0 autor do livro De spiritu et anima falsamente atribuído a S. Agostinho (t 430) afirmava que o corpo vive a vida vegetativa e cresce no seio materno antes de receber a alma intelectiva ou humana. Outro autor anônimo, que foi confundido com S. Agostinho, comparava a formação de cada ser humano à formação de Adão: Deus só daria a alma intelectiva ao corpo humano depois que este estivesse formado, como aconteceu no caso de Adão (Quaestiones ex Vetere Testamento c. XIII). Cassiodoro (t 580) raciocinava do mesmo modo e acrescentava o testemunho dos médicos que estabeleciam a animação do corpo humano no quadragésimo dia após a concepção (De anima c. VI 1). Cassiodoro, porém, observava que, em assuntos tão obscuros, seria melhor confessar a própria ignorância do que falar com temeridade arriscada.

Na Alta Idade Média a sentença da animação mediata foi reforçada pela difusão das obras de Aristóteles a partir do século XIII. S. Tomás de Aquino (t 1274) a adotou com outros pensadores da época, estipulando a infusão da alma humana ou racional no 409 dia para os indivíduos masculinos e no 80º dia para os indivíduos femininos. Houve também aqueles que, seguindo uma insinuação do médico grego Hipócrates, estabeleciam o 30º dia para o sexo masculino e o 40º para o sexo feminino.

A partir do século XIII, algumas vozes, principalmente dentre os médicos, começaram a se fazer ouvir contra a hipótese dos pensadores medievais, de modo que aos poucos foi predominando a sentença da animação imediata. A Genética contemporânea, com seus apurados estudos, só contribui para confirmar definitivamente esta noção científica.

Os defensores da animação mediata apelaram para três textos bíblicos, cujo alcance nos compete agora considerar.


3.Três textos bíblicos

Vêm ao caso Ex 21,22s; Lv 12,2‑5 e Jó 10,912.

a. a. O texto de Ex 21,22s

Segundo a tradução grega dos LXX, este texto supõe que um homem imprudente dê um golpe numa mulher grávida e provoque o aborto. Se a mulher morre ou se o fruto de seu ventre estava formado, a punição para o delinqüente será a morte ("morte por morte‑). Se, porém, a mulher não morre e seu fruto não estava formado, o réu pagará apenas uma multa. Este texto parece supor que existe feto formado, plenamente humano, e feto não formado, não plenamente humano. S. Agostinho e outros autores latinos (que usavam a Bíblia traduzida do grego para o latim) e gregos se apoiaram em tais versículos bíblicos para propugnar a animação mediata cf. S. Agostinho, In Hoptatouchum, II c. LXXX,

Em resposta, deve‑se observar que a tradução grega citada não corresponde ao texto original hebraico, nem às versões latina (da Vulgata), samaritana, síria, árabe. Eis o mais verossímil teor do texto segundo o original hebraico:

“Se homens brigarem e ferirem mulher grávida, e forem causa de aborto sem maior dano, o culpado será obrigado a indenizar o que lhe exigir o marido da mulher, e pagará o que os árbitros determinarem. Mas, se houver dano grave, então dará vida por vida".

Esta lei quer dizer o seguinte: se o delinqüente provocar expulsão do feto, mas sem morte nem da mãe nem da criança, a punirão será uma multa. Se, porém, houver morte ou da mãe ou da criança, o réu será condenado à morte. Como se vê, não há aí distinção entre feto formado e feto não formado.

0 próprio texto dos LXX, ao falar de “feto formado" e "feto não formado”, não tem necessariamente em vista os períodos de pré‑animação e de animação; pode apenas referir‑se à fase em que o embrião ainda é quase indiferenciado e àquela em que já pode ser identificado como ser humano. Como quer que seja, só pode ser utilizado, no caso, o texto hebraico como instrumento de argumentação, e não o texto grego

3.2 Os dizeres de Lv 12,2‑5

A Lei de Moisés prescreve quarenta dias de purificação às mulheres que tenham dado à luz um menino, e oitenta dias no caso de terem gerado uma menina. ‑ Ora esta lei nada tem que ver com períodos de formação do feto no seio materno; mas foi por numerosos autores antigos considerada como símbolo de fases de animação. Esta consideração, porém, nada prova, pois um símbolo não é demonstração nem prova.

b. b. As palavras de Jó 10,912

Eis os dizeres de Jó:
“Lembra‑te de que me fizeste de barro, e agora me farás voltar ao pó? Não me derramaste como leite e me coalhaste como queijo? De pele e carne me revestiste, de ossos e de nervos me teceste. Deste a vida e o amor, e tua solicitude me guardou”.

Neste texto o autor sagrado menciona primeiramente a formação do corpo (pele, carne, ossos, nervos) e, depois, a entrega da vida como dom da misericórdia divina. Por conseguinte, a alma humana teria origem posterior ao corpo. Esta conclusão parece corroborada pelo paralelismo que o texto tece entre a formação do corpo de Jó e a do corpo de Adão, ambas partindo do barro, que só depois de plasmado recebeu a alma humana.

Em resposta, notamos que o autor sagrado quer apenas referir a ordem que vai do menos importante (corpo) ao mais importante (princípio vital); não há aí sucessão cronológica de fases de formação do ser humano. De resto, sabemos que o autor sagrado não tencionava oferecer uma descrição científica dos fenômenos que ocorrem na origem de uma criatura, de modo que é despropositado querer deduzir de tais dizeres uma sentença de Genética ou de Embriologia. Adão e Jó são comparados entre si não sob o aspecto geneticista ou biológico, mas, sim, na medida em que ambos são objeto da Providência Divina.



4.Conclusão:

Como se deduz das declarações dos Concílios e dos Papas atrás citados, a Igreja sempre foi contrária à ocisão de uma criança no seio materno. Acontece, porém, que, não sabendo quando o feto se torna criança (ser humano) propriamente dita, os doutores antigos distinguiam a eliminação do feto antes do 409 ou 80? dia e o aborto propriamente dito. Não chegaram a legitimar ou aprovar aquela, mas julgaram que não podia ser considerada com tanto rigor como o aborto propriamente dito; veja‑se a intervenção de Gregório XIV em 1591 (p. 233 deste fascículo). Na verdade, a extração de um elemento não humano não pode ser tida como aborto.

Os antigos estavam, pois, condicionados pelo seu insuficiente conhecimento de Genética, mas por certo não toleravam o morticínio de uma criança, por mais incômoda que parecesse aos pais. Hoje em dia tal condicionamento desapareceu, de modo que se pode com mais nitidez e firmeza repudiar o aborto desde a concepção no seio materno, qualquer que seja a fase de evolução do feto.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Uma pipa no céu...; por Pe. Fábio de Melo scj






A vida exige leveza, assim como a viagem. A estrada fica mais bonita quando podemos olhá-la sem o peso de malas nas mãos.Seguir leve é desafio.




Há paradas que nos motivam compras, suplementos que julgamos precisar num tempo que ainda não nos pertence, e que nem sabemos se o teremos.




Temos a pretensão de preparar o futuro. Eu tenho. Talvez você tenha também. É bom que a gente se ocupe de coisas futuras, mas tenho receio que a ocupação seja demasiada. Temo que na honesta tentativa de me projetar, eu me esqueça de ficar no hoje da vida.




Os pesos nascem desta articulação. Coisas do passado, do presente e do futuro. Tudo num tempo só.




Há uma cena que me ensina sobre tudo isso. Vejo o menino e sua pipa que não sobe ao céu. Eu o observo de longe. Ele faz de tudo. Mexe na estrutura, diminui o tamanho da rabiola, e nada. O pequeno recorte de papel colorido, preso na estrutura de alguns feixes de bambú retorcidos se recusa a conhecer as alturas.




O menino se empenha. Sabe muito bem que uma pipa só tem sentido se for feita para voar. Ele acredita no que ouviu. Alguém o ensinou o que é uma pipa, e para que serve. Ele acredita no que viu. Alguém já empinou uma pipa ao seu lado. O que ele agora precisa é repetir o gesto. Ele tenta, mas a pipa está momentaneamente impossibilitada de cumprir a função que possui.




Sem desistir do projeto, o menino continua o seu empenho. Busca soluções. Olha para os amigos que estão ao lado e pede ajuda. Aos poucos eles se juntam e realizam gestos de intervenção...Por fim, ele tenta mais uma vez.




O milagre acontece. Obedecendo ao destino dos ventos, a pipa vai se desprendendo das mãos do menino. A linha que até então estava solta vai se esticando. O que antes estava preso ao chão, aos poucos, bem aos poucos, vai ganhando a imensidão do céu.O rosto do menino se desprende no mesmo momento em que a pipa inicia a sua subida. O sorriso nasceu, floresceu leve, sem querer futuro, sem querer passado. Sorriso de querer só o presente. As linhas nas mãos. A pipa no céu...



Pe. Fábio de Melo, scj

terça-feira, 10 de março de 2009


Que sentimento de impotência ante às coisas do mundo!

Como dói saber que as pessoas dizem-se cristãs, mas, contraditoriamente negam o princípio primeiro: a Vida!


Só Deus é autor ds Vida!


É preciso compreender que se Ele concebe é porque Ele tem um plano, não somos nós com a nossa defasada e insensata ciência que iremos julgar ou que muito menos através de um crivo arbitrário iremos sacrificar vidas incentes!


Deus pensou em nós bem antes que habitássemos no oculto do ventre materno(cf. (Is. 49, 1). Deus nos chamou pelo nome, nos chamou do nada à existência.


A Igreja sempre foi contrária ao aborto, ou seja, ao morticínio de uma criança contida no seio materno. Já no século I se encontra um testemunho deste repúdio na Didaqué. Os Concílios regionais, desde o de Elvira (início do século IV), foram impondo penas severas aos réus de aborto. 0 Direito Canônico, hoje vigente, fazendo eco às diretrizes do passado, prevê a excomunhão latae sententiae para quem provoque o aborto (seguindo‑se o efeito).

Todavia até época recente os cientistas hesitaram sobre o momento em que tem início a vida humana: seria imediatamente após a concepção ou após a fecundação do óvulo? Ou haveria, conforme pensava Aristóteles, um intervalo (de 40 ou 80 dias) entre a concepção e a animação do feto? A hesitação da ciência, bem compreensível, dada a falta de meios de pesquisa, fez que vários teólogos católicos julgassem com menos severidade a eliminação do feto antes do 400 dia (no caso dos indivíduos masculinos) ou antes do 809 dia (no caso dos indivíduos femininos). Note-se bem: sempre foi condenada a ocisão de uma criança; a hesitação versava apenas sobre a questão de saber se já existe verdadeiro ser humano desde o momento da concepção.

Num debate na televisão sobre o aborto, foi considerada a posição da Igreja em termos que deixaram interrogações na mente do público. Entre outras coisas, foi dito que a Igreja não tem autoridade para impugnar o aborto, pois que ela o permitiu desde o século IV até o século XIX. A afirmação foi realmente surpreendente e exige esclarecimentos e retificações. Encararemos, a seguir, o assunto, tratando primeiramente dos pronunciamentos oficiais da Igreja sobre o aborto através dos séculos; após o que voltar‑nos‑emos para a questão do início da vida humana, que deixou dúvidas em escritores de todos os séculos até época recente.

1. 1. Os pronunciamentos da Igreja

1. Desde o século I manifesta‑se na Igreja a consciência de que o aborto é pecaminoso. Assim, por exemplo, reza a Didaqué, o primeiro Catecismo cristão, datado de 90‑100:
''Não matarás, não cometerás adultério... Não matarás criança por aborto nem criança já nascida" (2,2). 0caminho da morte é... dos assassinos de crianças‑ (5,2).

Na segunda metade do século II, o autor da Epístola a Diogneto observa: Os cristãos casam‑se como todos os homens,‑ como todos, procriam, mas não rejeitam os filhos" (V 6).

0 autor da Epístola atribuída a S. Barnabé no século II e depois Tertuliano (t 220 aproximadamente), S. Gregório de Nissa (t após 394), São Basílio Magno (t 379) fizeram eco aos escritores precedentes.

2. 2. A legislação da Igreja oficializou esse modo de pensar, estipulando sanções para o crime do aborto. Assim o Concílio de Ancira (hoje Ancara) na Ásia Menor em 314, cánon 20, menciona uma norma que os conciliares diziam ser antiga e segundo a qual as mulheres culpadas de aborto ficavam excluídas das assembléias da Igreja até a morte; o Concílio atenuou o rigor dessa penalidade, reduzindo a para dez anos:

As mulheres que fornicam e depois matam os seus filhos ou que procedem de tal modo que eliminem o fruto de seu útero, segundo uma lei antiga são afastadas da Igreja até o fim da sua vida. Todavia num trato mais humano determinamos que lhes sejam impostos dez anos de penitência segundo as etapas habituais" (Hardouín, Acta Conciliorum, Paris 1715, t. 1, col. 279) ["Demulieribus quae fornicantur et partus suos necant, vel quae agunt secum ut utero conceptos excutiant, antíqua quídem definitio usque ad exítum vitão ws ab Ecclesia removet. Humaníus autem nunc definimus ut eis decem annorum tempus secundum praetixos gradus paenítentíae largíamur].

Outros Concílios repetiram a condenação do aborto: o de Elvira (Espanha) em 313 aproximadamente, cânon 63; o de Lerida, em 524, cânon 2; o de Trullos ou Constantinopla, em 629", cânon 91; o de Worms em 869, cânon 35...

Em 29/10/1588, o Papa Sixto V publicou a Bula Effraenatam: referindo‑se aos Concílios antigos, especialmente aos de Lerida e Constantinopla, condenou peremptoriamente qualquer tipo de abordo e impôs severas penas a quem o cometesse, penas que só poderiam ser absolvidas pela Santa Sé. Além disto, a Bula não distingue entre feto não animado e feto animado por alma intelectiva, distinção esta de que falaremos às pp. 234‑236 deste artigo e que na época parecia muito importante.

Tal Bula era rigorosa demais para poder ser observada, principalmente pelo fato de reservar à Santa Sé a absolvição das penas infligidas aos réus de aborto. Por isto foi substituída poucos anos depois pela Bula Sedes Apostólica de Gregório XIV, datada de 31/05/1591; este documento distingue entre feto animado e feto não animado por alma humana: o aborto de feto animado ou verdadeiramente humano seria punido com a excomunhão para os culpados, mas sem reserva da absolvição à Santa Sé; quanto ao aborto de feto não animado ou não humano, ficaria a questão como estava antes da Bula de Sixto (seria passivo de sanção menos severa do que o aborto de feto animado).

Como se vê, a questão da animação mediata ou imediata era ardente na época. Diante das posições extremadas que alguns autores professavam, o Papa Inocêncio XI condenou em 02/03/1679, corno escandalosas e na prática perniciosas, as seguintes sentenças:

34. É lícito efetuar o aborto antes da animação para impedir que uma jovem grávida seja morta ou desonrada.

35. Parece provável que todo feto carece de alma racional enquanto está no seio materno,‑ só é dotado de tal alma quando é dado à luz, Em conseqüência, deve‑se dizer que nenhum aborto implica homicídio" (DenzingerSchõnmetzer, Enquirídion de Símbolos e Definições nº 2134s),

Como se vê, o Papa não quis abonar a tese do aborto sob pretexto de que não afeta um ser humano propriamente dito. Embora não se soubesse com certeza no século XVI I quando começa a vida humana, Inocêncio XI não se prevaleceu desta incerteza para legitimar a eliminação do feto contido no seio materno.
No século XIX o Papa Pio IX renovou a condenação do aborto, sem distinguir animação mediata ou imediata:

“Declaramos estar sujeitos a excomunhão latae sententiae (anexa diretamente ao crime), reservada aos Bispos ou Ordinários, os que praticam o aborto com a eliminação do concepto” (Bula Apostolicas Sedis de 121101 1869).

Esta sentença categórica persistiu na Igreja até o Código de Direito Canônico atual, que prevê a excomunhão para o delito:

"Cânon 1398 - Quem provoca o aborto, seguindo‑se o efeito, incorre em excomunhão latae sententiae".

Vê‑se, pois, que a Igreja desde os seus primórdios se manifestou contrária ao morticínio de uma criança contida no seio materno. Existia, porém, para os teólogos a grave questão de saber quando começa a vida humana; a falta de conhecimentos genéticos adequados levava alguns a crer que, em determinadas circunstâncias, não havia verdadeira vida humana no seio materno. É o que passamos a examinar mais detidamente.


referências: